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Especialistas repudiam exposição de crianças para adoção em passarela: "É abusivo"


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Adoção na passarela opinião crítica

Um desfile de moda promovido pela Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (AMPARA), em parceria com a Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da Ordem dos Advogados do Brasil do Mato Grosso (OAB-MT), causou revolta nos internautas e a indignação de especialistas em educação e psicologia esta semana.

O evento ocorreu na última terça-feira (21) tendo como nome "Adoção na Passarela". Na ocasião, crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos desfilaram para uma plateia, supostamente, interessada em adoção, segundo os organizadores, para terem "visibilidade".


A presidente da Comissão de Infância e Juventude da OAB-MT e da Comissão Nacional da Infância, Tatiane de Barros Ramalho, abriu o evento com o seguinte discurso:

"Será uma noite para os pretendentes [pessoas que estão aptas a adotar] poderem conhecer as crianças. A população em geral poderá ter mais informações sobre adoção e as crianças em si terão um dia diferenciado em que elas irão se produzir, cabelo, roupa e maquiagem para o desfile", disse ela segundo a Universa, concluindo: "E como sempre dizemos: o que os olhos veem o coração sente".

Repúdio de especialistas



A psicóloga e escritora Marisa Lobo, autora de vários livros na área familiar, rebateu os argumentos do desembargador Orlando Perri, que defendeu o desfile alegando que se trata de uma forma de conscientização da sociedade.

"O psicológico dessa criança ficará abalado. Ela precisa se expor dessa maneira para mexer com o coração das pessoas para a adoção tardia? Então que se incentive dons, da música, intelectualidade e não exposição física", disse Marisa ao Opinião Crítica.

A psicóloga disse que o evento demonstra falta de cuidado com o mundo infantil, ao desconsiderar os desdobramentos sobre a mente das crianças por causa de tamanha exposição. Segundo maria, elas "estão sendo de certa forma usadas para atender a expectativa dos criadores de projetos".


"As pessoas então vão ser estimuladas a adotar via desfile de modas? Isso é estimular a resiliência nessas crianças? Não concordo, ninguém sabe o que vai acontecer, se serão adotadas ou não. O que sei é que a frustração por não serem [adotadas] após esse evento sem noção, vai gerar angústias, tristezas e fortalecer o complexo de abandono dessas crianças", diz Marisa.

Para Sandra Lia Nisterhofen Santilli, psicopedagoga e Conselheira Vitalícia da Associação Brasileira de Psicopedagogia Seção São Paulo, o evento foi algo que ela até o momento custa "a crer que tenha ocorrido de fato", de tão equivocado que foi pela natureza da execução, muito embora a intenção seja boa.


Sandra apresenta o mesmo questionamento de Marisa: "As crianças que estavam ali podem ter tido um dia divertido com a preparação, muita expectativa quanto ao objetivo... mas, quem cuidará dos que não forem escolhidos?". Ela também concorda que o evento pode reforçar nas crianças que não são adotadas o sentimento de rejeição. "A falta de cuidado e proteção com o emocional das crianças é assombrosa", diz ela.

A psicóloga Mayra Aiello, que também é mãe adotiva, explicou que apesar da intenção ter sido boa, a execução foi equivocada, porque reflete uma lógica de adoção já abandonada pelo Estado, que dá ênfase à aparência da criança e não à sua história de vida.

"É importante colocar a adoção em pauta, mas ainda há mitos que precisamos desconstruir, como o de achar que famílias vão aos abrigos escolher crianças pela carinha e dizendo 'eu quero aquela'", disse ela.


Marisa Lobo, por sua vez, conclui dizendo que ao invés desse tipo de exposição "desnecessária e abusiva", para facilitar a adoção tardia no Brasil o Estado precisa desburocratizar o processo de adoção, além de outras melhorias que ela cita como exemplo, a fim de preparar os pais adotivos e às crianças para o convívio familiar.
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