Ads Top

Como juiz acostumado a decidir, Moro não suportou estar subordinado ao presidente


Início da matéria
Como juiz acostumado em decidir, Moro não suportou ser subordinado ao presidente

Até hoje, o que passa na cabeça de muitas pessoas é: o que teria levado o ex-ministro Sérgio Moro à renunciar o seu cargo no ministério da Justiça de forma tão belicosa contra o governo do presidente Jair Bolsonaro?

Quem acompanhou o antes e depois na relação entre Moro e Bolsonaro desconhece o comportamento atual do ex-ministro, visto que em menos de cinco meses, em dezembro de 2019, ele havia elogiado os "avanços" no combate à corrupção no atual governo.

"Sancionado hoje o projeto anticrime. Não é o projeto dos sonhos, mas contém avanços. Sempre me posicionei contra algumas inserções feitas pela Câmara no texto originário, como o juiz de garantias. Apesar disso, vamos em frente", escreveu o ministro na época, segundo o Opinião Crítica.

Moro deixou claro que apesar de não ser 100% do que gostaria, o pacote "é um excelente texto e nada inconsistente com o teor originário do projeto anticrime. Como disse, apesar do juiz de garantias, há avanços."

Em abril, por outro lado, na ocasião da sua renúncia, Moro disse: “Sinais de que o combate à corrupção não é prioridade do governo foram surgindo no decorrer da gestão. Apontei todos. Incomodei muita gente. Praticamente implorei ao presidente que vetasse a figura do juiz de garantias, mas não fui atendido".

Não parece uma tremenda contradição? Se por um lado ele reconheceu que o juiz de garantias foi uma inclusão feita pela Câmara, por outro insinuou que o presidente teria sido o principal responsável da proposta. Diante deste cenário confuso, o que, afinal, estaria por trás desse mudança repentina de postura?

Moro e a subordinação a Bolsonaro


Uma das hipóteses mais prováveis levantadas por alguns analistas é a de que o ex-ministro Sérgio Moro não soube ligar com o protagonismo do presidente Jair Bolsonaro, não politicamente, mas administrativamente.

Politicamente a condição de Sérgio Moro é - ou era - confortável. Para muitos, a dobradinha Bolsonaro/Moro para 2022 seria uma possibilidade real, ou mesmo a substituição de um pelo outro.

Não era um problema para o ex-juiz da Lava Jato a fama política. Bastaria um "estalar de dedos" da sua parte no sentido de querer se aliar politicamente ao presidente, e não apenas tecnicamente, para que a sua força se tornasse ainda maior junto aos poiadores.

Por outro lado, o peso da visão administrativa do presidente Jair Bolsonaro pode ter sido o fator intragável para o ego do principal protagonista da operação Lava Jato. Acostumado a decidir/mandar, Moro precisou se adaptar à condição de subordinado.

E não se tratou de se sujeitar a qualquer pessoa, mas antes ao militar, capitão do Exército Brasileiro, Jair Bolsonaro, alguém com o típico perfil de liderança forte esperado na postura de qualquer militar de formação tradicional.

Assim como numa relação amorosa onde tudo são flores no começo, mas logo o casal vai descobrindo os próprios defeitos através da convivência, o "casamento" Bolsonaro/Moro parece ter esbarrado na dificuldade de um ter que se submeter ao outro sem ter que ouvir muitas explicações.

Moro não suportou a obediência?


Para quem está acostumado a mandar, ter que se submeter sem ouvir muitas explicações é algo verdadeiramente odioso. Em uma das suas declarações pós-Moro, Bolsonaro afirmou que o ex-ministro confundiu "carta branca com soberania", indicando que o mesmo precisaria estar sujeito, sim, ao seu comando.

Imagine-se na posição de Sérgio Moro, recebendo recomendações administrativas por parte do presidente, sem obter maiores explicações, sendo você um ex-juiz com 22 anos de carreira, acostumado a esmiuçar fato por fato, elementos por elementos, a fim de tomar uma decisão?

Se essa hipótese for verdadeira, Sérgio Moro certamente não suportou a exigência, leia-se: natural e legítima, do presidente Jair Bolsonaro por obediência em certas orientações de cunho administrativo, ou até mesmo político, o que não significa ilegalidade.

O pedido de renúncia teria sido nada mais do que um momento de extravaso. Uma declaração de "não aguento mais essa condição de subordinado", feita pelo ex-ministro de forma até impulsiva, mas certamente já pensada.

Moro encontrou no contexto delicado do país a oportunidade para "justificar" a sua demissão perante os seus apoiadores, acreditando que poderia sair sem carregar sobre si a imagem de "traidor", mas sim a mesma imagem de herói que conquistou na Lava Jato ao apontar suspeitas de corrupção do presidente.

Contudo, pela inconsistência até então das suas "provas", reconhecidas até por apoiadores com à advogada Janaína Paschoal, Moro parece ter errado drasticamente em sua estratégia. Com isso, o que seria um alívio para ele, se tornou um pesadelo jamais imaginado.
Tecnologia do Blogger.
close